sábado, 24 de agosto de 2013

Ricardo e Amarildo: caminhos diferentes de uma mesma história


O Ascenso das lutas sociais transformou acontecimentos cotidianos em pautas de mobilização. O desaparecimento do pedreiro Amarildo, morador da favela da Rocinha, foi um exemplo disso. Seu desaparecimento após uma abordagem do Bope levantou a população do Rio de Janeiro, e até de outros estados, contra mais uma arbitrariedade policial. A truculência policial é uma marca antiga das ações de segurança pública, mas agora as pessoas não se calaram. A grande mídia foi obrigada a ter que abordar este tema, tendo que reconhecer que as UPPs não são tão perfeitas quanto dizem que são. As redes sociais expressaram a mobilização dos movimentos sociais de direitos humanos, além da corajosa postura família de Amarildo que não se calou perante tamanha violência.



Mas como já foi dito, Amarildo foi só um exemplo dentre tantos casos de arbitrariedade policial, e não tardou para que ocorresse mais um caso de brutalidade contra um trabalhador, só que agora na Baixada Santista. No dia 31 de julho, o funcionário terceirizado da Unifesp, Ricardo Ferreira Gama, foi agredido após responder a uma ofensa de um policial, segundo estudantes desta universidade. Ricardo e os estudantes foram intimidados a não denunciarem o ato opressor da polícia. Mesmo assim, no dia dois de agosto, quatro homens encapuzados mataram Ricardo com oito tiros na porta de sua casa.

Mais um caso de assassinato de um jovem, negro e pobre, morador da periferia, que sofreu o peso de uma política de segurança que criminaliza a pobreza. Assim como população pergunta onde está Amarildo, é chegada a hora de denunciarmos o assassinato de Ricardo e encontrarmos os responsáveis por este crime. O Estado mais uma vez nos mostra que a polícia é utilizada para reprimir e intimidar os trabalhadores. É mais do que urgente a união dos movimentos sociais e dos trabalhadores para repensarmos a política de segurança de nosso país. É nossa tarefa continuar exigindo a solução do caso Amarildo e buscar elucidar o assassinato de Ricardo, mas o mais fundamental é aprofundarmos a construção de um programa político que repense a política de segurança de nosso país, de maneira que não criminalize a pobreza e os movimentos sociais. Somos todos Amarildo e Ricardo!


O FRACASSO DA POLÍTICA DE CABRAL

  
                                      
     Após sete anos do governo PMDBISTA de Cabral, o desastre de suas políticas públicas causa indignação a toda sociedade.  Não podemos esquecer, porém, que tal como a maioria dos prefeitos dos municípios fluminenses, as políticas públicas de Cabral seguem a mesma lógica neoliberal do governo petista de Dilma, que, aliás, foi a principal fiadora da eleição e reeleição desse nefasto governo, tampouco não podemos ter dúvidas que essas políticas só foram implementadas através da sustentação de uma forte bancada governista na Assembleia Legislativa. Todos os Deputados, e seus respectivos Partidos, que votam com o governo, são também responsáveis pelo caos em que se encontra a sociedade do Rio de Janeiro.

Quando nos indignamos com a corrupção, as imagens e notícias publicadas, inclusive pela grande mídia, de secretários e comissionados do governo se divertindo em festas na Europa enquanto hospitais e escolas são sucateados e funcionários concursados, quando reivindicam melhores condições de trabalho, são tratados com cinismo e truculência. O uso de jatinhos, de empresários que sugam o dinheiro público através de supostas licitações e mais recentemente o uso de helicópteros do estado em deslocamentos de "autoridades" acompanhados de suas famílias, para compromissos particulares é uma afronta à sociedade e nos causa indignação.

A política de segurança pública baseada na instalação de UPPs em comunidades a pretexto de acabar com o tráfico de drogas foi uma farsa, pois o tráfico continua a existir e seus efeitos danosos, principalmente para a juventude, persistem. A ausência do estado nas comunidades com políticas reais que recuperem a dignidade dos cidadãos como; saneamento básico, medicina preventiva, escolas e creches em horário integral acompanhada de políticas de geração de emprego foram esquecidos ou nem mesmo cogitadas. O que assistimos é a truculência de uma polícia despreparada e orientada para "pacificar" na marra a comunidade.  O episódio da ação policial na comunidade da Maré, o desaparecimento do cidadão Amarildo e as manifestações exigindo saneamento básico ao invés de teleféricos atestam a farsa dessa política. Beltrame, que no início de sua carreira foi agente infiltrado nos movimentos sociais parece traduzir bem o perfil da segurança pública de nosso estado.

A saúde pública assume proporções de extrema crueldade, em especial com a classe trabalhadora, que não têm condições de arcar com um plano de saúde para sua família. Os Hospitais públicos foram sucateados, os salários dos profissionais de saúde achatados, e a iniciativa privada, através de parcerias, convidada a participar do banquete, passando a gerenciar com o dinheiro público o caos da saúde pública, trata-se de lucrar com o sofrimento alheio. As Upas apresentadas como solução redentora revelaram-se impotentes diante das necessidades da população. A sua concepção não foi vinculada há uma lógica de saúde preventiva nem conjugada a políticas que contribuam com a melhora da qualidade de vida da população em seu entorno como; saneamento básico (água, esgoto, coleta de lixo regular e seletiva), qualidade alimentar, eliminação de vetores transmissores de doenças etc. Hoje as Upas são uma triste realidade. Faltam profissionais, material básico para atendimento aos pacientes, e uma conexão com Hospitais para casos de maior complexidade, pois os mesmo vivem também situação de precariedade. As UPAs  são em sua maioria gerenciadas pelo setor privado cujo compromisso primeiro é com o lucro e não com a sociedade. Os profissionais dessas Unidades são submetidos a uma demanda de serviços angustiantes e carregados de tensão social, o que ajuda a entender o pedido de afastamento de muitos desses profissionais. 

A educação pública em nosso estado tornou-se um caso de vergonha nacional, gerenciada pelo secretario economista, fechou o maior número de escolas desde a criação de nosso estado, o número de matriculas na rede diminuem a cada ano. As terceirizações de serviços cresceram em número alucinante. Hoje na rede estadual até computadores e ar condicionados são alugados para deleite de empresários. Serventes, merendeiras e funcionários administrativos são em sua maioria terceirizados e atuam com vínculos trabalhistas precarizados para um conjunto de firmas que mudam de nome e não de donos. Até mesmo a nível pedagógico o atual secretário economista, seguindo a lógica de seu chefe governador, assina convênios com firmas privadas para o gerenciamento de projetos na rede, Uma vergonha que promoveu a indignação de professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A eleição de diretores de escolas pela comunidade escolar foi sepultada e substituída por uma prova em que um dos critérios se consiste no exame de "perfil" dos candidatos, possivelmente acompanhado do número do seu título de eleitor. A última invenção desse economista perdoe-me os economistas, foi uma prova de certificação que pretende retestar o conhecimento dos professores, retestar parece ser a expressão correta, pois não podemos esquecer que todos já foram submetidos a concurso público. 

Essa certificação acarretaria a todos os aprovados uma gratificação que poderá em dois anos dobrar os vencimentos dos profissionais. É claro que uma das condições para obter aprovação e o exame do "perfil" do candidato funcionário, como por exemplo, não ter faltado ao trabalho mesmo que em períodos de greve da categoria e ter cumprido sem hesitação as determinações do lamentável secretário. Essa política baseada na lógica da meritocracia destrói a isonomia entre os profissionais da ativa e aumenta  defasagem salarial com os aposentados. A avaliação de perfil de funcionários para efeitos remuneratórios é uma afronta ao Estatuto do Funcionalismo e um excrescência ao Estado Democrático de Direito. O ovo da serpente. 


Dilma patrocina a maior entrega do patrimônio brasileiro


Por Emanuel Cancella*

Com aval de todos os partidos da base do governo – inclusive PT, PC do B, PSB e PMDB - o leilão de Libra, o maior campo de petróleo do mundo, marcado para dia 21 de outubro, representa uma entrega sem precedentes do patrimônio público.
Desde a transferência do nosso ouro e pedras preciosas para Portugal e Inglaterra, na época do Brasil-colônia, o leilão de Libra, transformado em valores, representa um desvio de riquezas bem maior do que: a maioria das privatizações subavaliadas da era Collor-FHC; os escândalos contemporâneos do PROER, Privataria Tucana, Propinoduto do Metrô de São Paulo, mensalão do PT, do PSDB e do DEM juntos; e o desvio anual de metade do nosso PIB às oligarquias estrangeiras, com o pagamento dos juros exorbitantes da dívida externa.
Tudo isso transformado em cifras é menos do que os valores envolvidos no leilão (leia-se entrega às grandes petrolíferas estrangeiras) do campo de Libra.
O inacreditável que é que todos os partidos de esquerda, as centrais sindicais, a maior parte dos movimentos sociais permaneçam omissos. Á essa altura, a direita vibra, pois se dependesse dos tucanos, a descoberta do pré-sal seria comemorada nos EUA e/ou na Europa.
As denúncias que, nós, de esquerda, fizemos, preocupados com a presença da IV Frota dos Estados Unidos nas costas do Brasil, hoje soam vazias, desnecessárias e sem sentido. Pois a audiência pública que precede o leilão de Libra será realizada amanhã, terça-feira (6), às 15h, em dependências militares, na Escola Naval, como aconteceu antes da 11ª rodada. Portanto, parece que as nossas forças armadas também fazem coro com os omissos, quando se trata da entrega do petróleo brasileiro aos imperialistas.
Como se fosse coisa insignificante a entrega do nosso ouro-negro aos estadunidenses e europeus, no mesmo dia e hora da audiência pública sobre o leilão de Libra, sabe onde estarão as centrais sindicais e a maior parte dos movimentos sociais? Protestando na porta da federação das indústrias contra o PL 4330, que trata de terceirizações.
As terceirizações já acontecem livremente. Esse projeto-de-lei deve ser denunciado e a situação das terceirizações revertida. Mas o fato é que o PL 4330 apenas legitimaria, se aprovado, o que o governo já pratica. O que questionamos é a omissão e o silêncio de tantos diante dessa entrega sem precedentes do patrimônio nacional, nosso “passaporte para o futuro”, como reconheceu, durante a campanha eleitoral, a própria presidenta Dilma Rousseff.
O campo de Libra foi cogitado para atender à Cessão Onerosa, Lei 12.276/10, porém, quando furaram para dimensionar a quantidade de petróleo existente, constataram que Libra possui mais de 14 BI de barris de petróleo e a Cessão Onerosa é de 5 BI de barris.

Mas, diante dessa constatação, o que fazem a Dilma, Foster e Magda? Colocam Libra para ser leiloado pela ANP! Sem nenhum respeito pelo dinheiro e o patrimônio público, decidem trocar uma riqueza estimada em hum trilhão e quatrocentos bilhões de dólares pelo bônus mínimo de 15 bilhões de reais. Nenhum país soberano no mundo trata seu petróleo, sua maior riqueza, dessa forma.
Os EUA preservam suas reservas e vão comprar petróleo na OPEP. A Rússia e a China também tratam suas reservas de forma estratégica: e nós vamos entregar de bandeja o campo de Libra!
O governo e sua base parlamentar mentem para sociedade quando dizem que o leilão vai trazer desenvolvimento para as regiões: já foram realizados onze leilões e até hoje nenhuma refinaria, nenhum navio, nenhuma plataforma, nenhuma sonda de perfuração foram fabricadas no Brasil por empresas de fora que venceram os leilões.
Enquanto Dilma se contradiz festejando a entrega do petróleo, ao passo que na campanha eleitoral assegurava que o pré-sal seria “nosso passaporte para o futuro”; Graças Foster, presidente da Petrobrás está envolvida em nepotismo, favorecendo ao próprio marido em negócios com a ANP: vejam na página do Sindipetro-RJ o artigo “ Maria das Graças Foster e o ovo da serpente”. Já Magda Chambriard, Diretora-Geral da ANP, declarou à imprensa, sem nenhum constrangimento, que vai trabalhar numa petroleira quando sair da ANP.
Quando o petróleo era apenas um sonho, o povo brasileiro foi capaz de derrotar as elites, na vitoriosa campanha “O Petróleo é nosso!”, nas décadas de 1940-50, que resultou na criação da Petrobrás e do monopólio Estatal do Petróleo. Agora que o petróleo é uma realidade, é lamentável a ausência de estadistas capacitados e comprometidos com os interesses do país e a omissão de tantos que poderiam ajudar a virar esse jogo. Estamos prestes a assistir e a permitir que os lobos sejam colocados para cuidar do galinheiro.

* Emanuel Cancella é diretor do Sindipetro-RJ e coordenador da Federação Nacional dos Petroleiros.



sábado, 10 de agosto de 2013

COMEMORE O DIA DOS PAIS NO QUILOMBO DO GROTÃO


Venham comemorar o Dia dos Pais com a gente no Quilombo Do Grotão ao som do Grupo Choro Malandro com nossa tradicional feijoada e muita alegria! Parabéns a todos os pais que lutam diariamente pelo melhor para os seus filhos e por uma sociedade mais igualitária e fraterna! Vamos juntos!

PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO EM LUTA !

          As políticas públicas de caráter liberal desenvolvidas pela maioria dos prefeitos de nosso estado seguem a mesma lógica das políticas do governador Cabral. O sucateamento dos serviços públicos seguida de um avanço do processo de privatização traduzem o caos que vivemos em nosso estado. Transportes públicos, Segurança, Saúde e Educação de qualidade são objeto da pauta de reivindicações das manifestações populares.
     Os profissionais de educação de diversos municípios através do seu Sindicato, o SEPE, fortalecidos  pelos movimentos sociais estão em luta por uma educação pública de qualidade.
Os profissionais de educação de Niterói, Valença, Rio de Janeiro (rede municipal e estadual) encontram-se em movimento grevista e diversos outros municípios diante da postura intransigente dos governos apontam para indicativos de paralisações.
        Gostaríamos reiterar que o nosso mandato esta a disposição dos amigos profissionais de educação no que for necessário para a vitória de nossas reivindicações.

        Um abraço,
                 


Na sexta-feira (9/8), profissionais de educação ocuparam o 6º andar do prédio da Prefeitura de Niterói. A categoria conseguiu “arrancar” uma audiência, para o dia 15/8, às 15 horas, com o prefeito Rodrigo Neves.

Veja as fotos:



Fique atento a agenda dos movimentos

Niterói  - próxima Assembleia dia 15 às 16 horas  ( local Liceu Nilo Peçanha)
Rio (município)  - Assembleia dia 14 às 10 horas  (local  a confirmar)
Rio (rede estadual)  - Assembleia dia 14 às 14 horas ( local a confirmar)


Redes estadual e municipal (Rio) entram em greve

Saiba mais:




Leia e curta o “Diário da Classe” - “Luta pela educação – bem unidos façamos”






O choro de Cabral e o choro de Amarildo*





"Não me dão pena os burgueses vencidos.
E quando penso que vão me dar pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.
Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem abrigos nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias."

(“Burgueses”, de Nicolás Guillén)


Nicolás Guillén é um poeta maior. Poeta e revolucionário. Quando essas duas coisas se juntam numa só pessoa, virtudes das mais nobres entre as outras, temos aqueles raros: os imprescindíveis. Teoria e prática, intelectuais e homens de ação. Guillén, Ernesto Cardenal, Marti... Pensei muito em Guillén na última segunda-feira (5). Perseguido tantas vezes na ditadura de Fulgêncio Baptista, voltou para Cuba depois da saída do tirano. E quando alguns de seus algozes foram presos, perguntaram a ele o que sentia. Respondeu com o poema "Burgueses", (com trecho acima reproduzido).

 Lembrei-me de Guillén ao ver o governador do Rio acuado, em tom choroso, pedindo ternamente, feito um menino indefeso, que os manifestantes deixassem de fazer seu legítimo protesto próximo a casa dele. Não teve o pudor em poupar o nome e a idade dos filhos para alcançar seu intento. Já não tivera pudor para botar os filhos no helicóptero do amigo empreiteiro da Delta. Mas crianças são crianças e sempre nos tocam. Por algum momento, tal qual o poeta, pensei que iam me dar pena. Por algum momento, pensei em considerar seus argumentos.

Mas tal qual o poeta, apertei bem os dentes e fechei bem os olhos. Pensei nos filhos de Amarildo, o pedreiro da Rocinha que sumiu depois de ser visto pela última vez nas mãos dos servidores de Cabral, símbolos da política de segurança do governador. Tal qual o poeta, pensei nos longos dias da mulher e dos filhos de Amarildo. Sem camisa nem sonho, com a pele proibida...São tantos Amarildos nesse Brasil onde pobres não tem sapatos nem rosas nem tampouco direitos. Muitos no Rio de Cabral, que nunca pensou no filho de nenhum deles.

Tal qual o poeta, pensei nos longos dias das famílias da Maré, dos trabalhadores assassinados sem qualquer razão. Cabral ainda não falou sobre eles. Poderia lembrar de tantos outros como os da Maré. Pensei nos longos dias das pessoas vítimas de crimes forjados, prática tão comum por aqui, mais ainda com a política de Cabral.

Pensei nos meninos da Escola Friedenreich. Alguém há de me lembrar que ela é municipal. Não esqueci. Mas está saindo para que o governador melhor sirva seus amigos que ganharam o Maracanã. Tal qual o poeta, pensei nos longos dias sem abrigo nem nuvens daqueles meninos. Alunos de uma escola de excelência, forjaram ouro no meio do nada. Imaginem o trauma desses meninos quando souberam que iam sair dali. Cabral pensou neles?

Pensei de novo nos versos citados do poeta, dos dias sem abrigo nem nuvens (que imagem!), das vítimas das remoções criminosas de todos aqueles que estão no caminho dos "grandes eventos". Quão longos e traumáticos devem ser os dias dos meninos que têm um "X" desenhado na porta da casa humilde, indicando que ela será posta abaixo. Cabral pensou neles? Alguém novamente lembrará que muitas dessas remoções são municipais. A força que dá o pé na porta é estadual. E afinal, seria ser muito idiota da objetividade achar que @sergiocabralrj e @eduardopaes são tão diferentes assim.

Pensei nos longos dias dos meninos que iam pelos braços dos pais na geral do Maracanã. Viam o jogo na “carcunda” dos pais, naquele ritual que todo homem sonha, o rito da passagem. Agora exclusivo dos que podem pagar o setor vip. Do Maracanã ferida que não fecha, como definiu tão bem Pedro Motta Gueiros. Destruído por Cabral rasgando a lei. Destruído com aval do Instituto  do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) na calada da noite, como agem aqueles que não são transparentes. Ele mesmo que agora diz não ser um ditador. Ele mesmo que publicou o decreto 44.302/2013, da CEIV, Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas, que rasgava a Constituição. Quem rasga a Constituição é o que? O governador de tantos atos de exceção.

Por sorte, a sociedade civil e todos seus instrumentos se fizeram representar e vêm forçando essa recuada do ditador que sonhou ser, acuado, patético como todo ditador acuado. Espécie de Sadam Hussein no buraco, Kadafi na manilha. Ele, Cabral, desnudo em sua patética biografia que vai se desmilinguindo. Que há poucos dias tirou os mesmos manifestantes abaixo de pauladas e gases, sem pensar nos filhos deles, na calada da noite. Agora, na fragilidade do buraco e da manilha onde os ditadores se esvaem, apela para um discurso emocional.

Mesmo pensando em nossos longos dias, não deixaremos de pensar em duas crianças. Que não pediram isso. Oxalá possam lá na frente superar o trauma do pai ter deixado tal obra. Realmente elas nada têm a ver com tudo isso. Não precisam ver que na esquina do pai deles falam um monte de verdades sobre ele. Ainda bem que tem a opção nesses dias de sair dali. Ir por um tempo para o Palácio das Laranjeiras. Ou quem sabe para a Mansão de Guaratiba. Talvez não dê mais para ir de helicóptero, abateram o governador-voador, o do reino do guardanapo, em plena farra aérea. Mas ainda dá para passar uma temporada longe dos protestos na mansão comprada com o suor do trabalho do pai deles. Desejo isso do fundo do coração. Crianças não têm mesmo que passar por isso.

Lamento apenas que os filhos do Amarildo não tenham palácios ou mansões para onde correr. Lamento apenas que os filhos da Maré não tenham para onde correr. Lamento apenas que os meninos que iam na “carcunda” do pai na geral do Maracanã não tenham para onde correr. Lamento apenas que os filhos dos removidos não tenham para onde correr. E então, "quando penso que vão me dar pena, aperto bem os dentes e fecho bem os olhos". Pela certeza de que os acampamentos seguirão. Até que se preste conta de tudo. E para que se saiba que foi longe demais na farra.

PS- Se botar um pouquinho a cabeça para fora do buraco ou da manilha, o governador vai ver que as pessoas passam pelos acampados buzinando, abrindo a janela dos carros, gritando palavras de força. Para aqueles acampados pacificamente, vale dizer. E que os vizinhos, que poderiam estar incomodados, levam refeições, agasalhos. Pelo menos se pouparia de perder tanto tempo pensando em teorias da conspiração, manipuladores. É apenas a conta de tanto desmando que chegou. É aquela turma da "pele proibida" que veio cobrar a conta.

Nota dos Editores: 
Discordamos da forma como o autor caracteriza as prisões e assassinatos de Sadam Husseim e Muamar Kadafi pelo imperialismo, como se as invasões armadas ao Iraque e à Líbia tivessem tornado o mundo "mais seguro" ou as populações dos dois países "mais livres" sem eles. De toda forma, é o único "arranhão" em um correto e contundente artigo sobre o governador do Rio de Janeiro. (Secretariado Nacional do PCB). 

*Texto publicado no site do PCB.



A Mídia Ninja: INCÔMODOS CONTRA A MÍDIA EMPRESARIAL


No programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira (dia 5 de agosto), foram entrevistados os representantes da Mídia Ninja, Bruno Torturra e Pablo Capilé. Minha curiosidade era grande para entender este fenômeno midiático, que assolou a internet, obrigando a grande mídia a se curvar perante às denúncias e cobertura dos ninjas. Mas os entrevistadores estavam mais preocupados em se proteger e explicar suas próprias práticas viciadas, do que debater os rumos da mídia diante do impacto das manifestações e do novo jornalismo dos ninjas.

Os jornalistas tinham ares de inquisidores, buscavam disfarçar seu incômodo. Estavam incomodados porque os ninjas profanaram o dogma do mercado e questionaram o mito da imparcialidade jornalística. A tônica dos entrevistadores era a tradicional esquizofrenia de reduzir toda a discussão a dois pontos basicamente: a) formas de financiamento; b) relações com partidos políticos. Uma tentativa de desmoralizar o debate sobre democratização da mídia, lançando dúvidas sobre a idoneidade dos entrevistados. 

Os entrevistadores não entendiam, nem queriam entender como era possível uma imprensa baseada na organização popular, assumidamente parcial e disposta a compreender que a cobertura das manifestações era um serviço à democracia. Os carcomidos jornalistas queriam apenas jogar palavras ao vento, causando um suposto sentimento de dúvidas sobre a autonomia jornalística e a transparência das contas do Fora do Eixo, entidade que garante ajuda financeira à Mídia Ninja.

Não concordo com os parâmetros do Fora do Eixo, pois acredito que a cultura deve ser pensada como política pública e não como empreendedorismo. No entanto, a condução do debate no Roda Viva era criticar o jornalismo feito pelas pessoas “comuns”, um jornalismo que não é negócio, chegando, inclusive, a levantar a ideia que nem poderia ser considerado jornalismo, já que a Mídia Ninja se baseia em coberturas espontâneas.
           
Não aceitavam que a imprensa deva ser engajada ou assumir um lado. A mitológica neutralidade é um esconderijo poderoso para as corporações midiáticas, que não se furtam de defender seus apadrinhados, sempre ligados ao grande poder econômico. A imparcialidade garante uma impressão de verdade absoluta, muito útil quando se procura escamotear a diversidade de opiniões. Alguns jornalistas, portanto, estavam representando bem seus chefes quando questionavam os ninjas.

É fato que Bruno Torturra está numa aventura com a REDE da Marina Silva, e Pablo Capilé possui relações com o PT mais próximas do que realmente afirma, mas isso não invalida em nada o debate sobre democratização da mídia e o legado deixado pela cobertura das manifestações feito pela Mídia Ninja. Mais uma vez a grande mídia quer confundir para manter as coisas como estão. Não querem que a sociedade debata a informação que é veiculada, não querem outras versões, não querem perder o monopólio da comunicação.

Mídia Ninja, na ordem: Filipe Marçal, Bianca Buteikis,
 Bruno Torturra, Felipe Altenfelder e Thiago Dezan
São interesses econômicos, assentados em poucas famílias, que garantem o revezamento de poder no país. Mexer na mídia é mexer nas oligarquias, em negócios que organizam a pauta política do país. Não querem deixar de ser o quarto poder, de receber os gordos incentivos fiscais e manter suas renovações de concessão sem que haja qualquer debate com a sociedade.

Independente dos caminhos e descaminhos da Mídia Ninja, abriu-se um debate fundamental sobre a democratização da mídia, que expressa a indignação das pessoas. Quando as ruas entoaram palavras de ordem contra a Rede Globo e vaiaram diversos canais de TV estavam de alguma forma questionando esta lógica fisiológica e comercial da mídia.  Façamos a nossa mídia!